Percepções do Visível

Conteúdo adicionado no dia 10/10/2014.

O início
“Todos os fotógrafos precisam de um quarto escuro, devem revelar seus filmes em uma sala escura,” fala o fotógrafo cego esloveno Evgen Bavcar, “e toda a minha vida é uma sala escura, eu sou uma sala escura, usando uma máquina por onde entra a luz. Por que não poderia fazer fotos? Isso não é uma provocação e sim um desejo interior de fazer imagens.”
Motivados por esse mesmo desejo interior de fazer imagens, de registrar os aspetos mais marcantes da vida como todos nós fazemos, os próprios freqüentadores do Espaço Braille da biblioteca do Centro Universitário Senac chegaram aos seus professores de informática no começo deste ano para solicitar um curso novo, inesperado e até irônico à primeira vista: um curso de fotografia para portadores de deficiência visual.

O que é o projeto ?
Fruto desta solicitação, Alfabetização visual é um projeto de fotografia participativa com jovens e adultos portadores de deficiência visual onde os alunos aprendem a usar a fotografia como meio de expressão criativa e inclusão social, comunicando suas percepções sobre o mundo e despertando consciência no público vidente sobre a realidade da comunidade cega.

Quando começou e em que contexto?
O curso com deficientes visuais se tornou realidade em abril de 2008 como parte do projeto, coordenado pelo professor João Kulcsár. Alfabetização visual tem por objetivo capacitar alunos do curso Bacharelado em Fotografia, do Senac para dar aula de fotografia em projetos sociais de maneira sempre refletiva, consciente e crítica.
Atuando como educadores na prática de um determinado projeto social, os alunos voluntários do projeto aprendem a preparar, conduzir e avaliar uma aula, ampliando ao mesmo tempo suas visões sobre as possibilidades da fotografia ao conhecer novas realidades e novos olhares. Como uma educadora do projeto falou na primeira aula do ano, “Minha expectativa é enxergar a fotografia não apenas com os olhos”.
Ao longo do ano, os educadores e docentes também participaram de várias orientações – no Museu do diálogo em Campinas, na Pinacoteca do Estado e no próprio Espaço Braille da biblioteca do Senac – para aprender sobre numerosos aspetos relacionados a como trabalhar com portadores de deficiência visual, desde a mobilidade até a leitura da imagem.

Onde está sendo realizado? As aulas de fotografia para portadores de deficiência visual, planejadas e ministradas pelos educadores acontecem semanalmente no Centro Universitário Senac em Santo Amaro, na zona sul de São Paulo, além de saídas fotográficas em diversos lugares da cidade, entre eles o Mercado Municipal e o Centro Histórico.

Quem envolve? • Os alunos, jovens e adultos com graus variados de deficiência visual • Os educadores, alunos voluntários do curso de bacharelado em fotografia • Os supervisores, docentes do Senac, das áreas de Fotografia, Audiovisual e Design • Funcionários do Espaço Braille da biblioteca do Centro Universitário Senac

Como funciona? “A gente só escuta pessoas que não acreditam em nós, que perguntam, ‘Cego tirando foto? Que é isso?’” Débora, uma aluna do curso, comentou durante a aula. A pergunta, que chega sem falta a todos os alunos e educadores do projeto, pode vir em várias formas mas sempre é a mesma: Como é que alguém que não enxerga consegue fazer uma foto?
No final, não existe uma única resposta à essa pergunta famosa, senão múltiplas respostas que a gente foi e ainda vai conhecendo, e as fotos dos alunos, provas imagéticas e tangíveis do fato de conseguir.
Durante todo o curso, que foi dividido no primeiro ano em três módulos com os temas de “Manuseio,” “Sentidos,” e “Ensaio Fotográfico,” nossa metodologia principal tem sido uma de prática participativa. No primeiro módulo, desenvolvemos junto com os alunos técnicas de distanciamento, enquadramento e composição que envolvem uma interação espacial e corporal tanto com o sujeito da foto quanto com a máquina fotográfica. Enfocamos também nas técnicas de autonomia, de aprender a expressar verbalmente a intenção interior da imagem, e de saber fazer as perguntas adequadas para atingir sua realização fotográfica.
Já no segundo módulo, “Sentidos,” dedicamos cada aula à exploração de um sentido diferente, aproveitando a linguagem dos outros sentidos, bem presentes no dia a dia dos alunos, como meio de expressar idéias e sentimentos e mostrar a realidade dos deficientes visuais de forma fiel. “A gente vê as coisas,” comentou uma aluna, “mas de um jeito diferente”. Através da aproximação do tato, da audição, do paladar e do olfato, os alunos conseguiram compor imagens que comunicassem seus olhares originais de uma maneira ao mesmo tempo visual e emocional.
“Como a gente não tem a orientação visual, a gente tem que expressar um olhar de dentro,” explica João Batista, um aluno do curso. “A fotografia é antes de tudo imaginar a imagem na cabeça, e depois fazer o click.”

Quais são os objetivos do projeto?
O projeto tem como objetivo estimular a reflexão, a imaginação e a participação dos alunos, desenvolvendo sempre a auto-estima e abrindo novos canais de comunicação e expressão entre os portadores de deficiência visual e o público vidente.
Uma outra parte fundamental do projeto consiste no registro escrito e fotográfico das aulas e atividades do curso, que tem como fim a produção de um guia e um site que podem servir como referências para outros educadores e artistas interessados em realizar projetos de fotografia participativa com portadores de deficiência visual.
Finalmente, no coração do projeto, procuramos situar nossas atividades no contexto de um processo maior de trabalhar e lutar por um mundo que promove, nas palavras do Bavcar, “a aceitação de todos que olham de outro modo”.