Iatã Cannabrava – Outra Cidade

Conteúdo adicionado no dia 10/10/2014.

Para ler com os pés
Horacio Fernándes, historiador e curador
Escrevo em Roma. Já sabem: a cidade eterna.
Um lugar em que o passado envolve tudo e a história, sempre presente, aparece quando menos se espera.
Mas às vezes há surpresas.
Você vai tranquilo por uma rua decrépita e de repente tropeça com uma esquina em que ainda se pode ler um protesto contra Julio César assinado por Marco Antonio, meio encoberto por um cartaz recém colado que diz: FutuRoma.
FutuRoma?
Será uma broma?
Não, e tampouco é cinismo.
É que este ano de 2009 é o centenário do Futurismo, que está sendo celebrado esplendidamente nos papéis e nas paredes.
Com cem anos, o Futurismo ficou mais manso, deixou de ser ameaçador, se é que alguma vez o foi. Não lhes faltavam ideias más aos seus partidários, mesmo que mais de palavra que de obra. Queriam acabar com as cidades-museu, começando por Roma.
Para a demolição contavam com a guerra, que qualificavam de purificadora. As novas construções sobre as ruínas teriam de ser futuristas, algo que, tanto naquele momento quanto agora, não é simples saber o que quer dizer. Talvez signifique que um objeto futurista é capaz de chegar ao futuro, ou seja, será duradouro. Embora nem tanto como Roma. A cidade eterna, sim.
A verdade é que o presente não dura nada, quando a gente se dá conta, já passou.
Já é passado.
E lhe escapa o futuro.
As imagens de Iatã Cannabrava mostram a cidade do presente, tão frágil e instável, que está condenada a desaparecer de imediato por qualquer causa, independente do movimento dos ponteiros do relógio.
Para acabar com ela é suficiente uma tempestade, um acidente ou o capricho de um vereador disposto a favorecer ou a incomodar alguém ou algo.
Caso não ocorra um cataclismo, uma erupção vesuviana ou a detonação de uma bomba H, as velhas cidades se mantêm melhor.
As cidades antigas têm que durar por contrato.
Como querem ser tão eternas como Roma, constroem, geração após geração, sinais que indiquem a passagem do tempo.
Estão cobertas de marcas que demonstram sua sobrevivência.
Grandes construções, monumentos e lápides de pedra ou metal, materiais que até nas ruínas parecem inalteráveis.
A outra cidade que nos conta Iatã Cannabrava em suas fotografias é efetivamente outra.
Realmente, é o presente, nada mais que o presente, sem mais esperança de sobrevivência que aquela a qual lhe conceda a sorte.
A sorte não se destaca precisamente por seus excessos de generosidade.
Pode durar uma cidade de madeira, de lata, de papelão?
Uma cidade sem ruas e praças, semáforos e estacionamentos, mercados e escolas, hospitais; mas cheia de pedestres e automóveis, vendedores e compradores, crianças e doentes.
Uma cidade engalanada com enormes cartazes que apregoam desejos que ninguém alcança, salvo em efígie, em imagem. Autos grandes, belezas generosas, fogos de artifício, roupa simbólica e um et cetera que se resume em diversão e estimulantes.
Cartazes que evocam timidamente, exceto no tamanho, os excessos dos outdoors publicitários dos bairros de classe média que também são um mal sucedâneo e uma pior evocação da ornamentação monumental do passado.
A cidade do presente não tem monumentos, história, futuro e tempo, mas tem muitos donos. Além dos amos de verdade, frequentemente discretos, há outros desejosos de sê-lo que por falta de algo melhor se dedicam a deixar marcas.
A cidade do presente está coberta de assinaturas de rapazes obsessivos que asseguram a autoestima marcando seu território como cachorros de rua. Como se fotografa uma cidade assim?
Não basta ser curioso.
Há que aprender a ler com os pés.
O fotógrafo com a perna engessada do filme de Alfred Hitchcock, A janela indiscreta, poderia ter feito a reluzente fotografia da capa deste livro de Iatã Cannabrava, tingida com as cores café com leite dos noturnos urbanos iluminados com lâmpadas de mercúrio.
A mesma luz mortiça com que Michael Mann iluminou o sombrio final do filme Colateral, um dos poucos momentos recentes da experiência urbana, da cidade do presente.
James Stewart podia ter feito aquela foto, é verdade, de sua janela, sem levantar-se de sua poltrona, mas não muitas mais das que este livro mostra.
A cidade não se vê até que se vive, é um livro que se lê com os pés, como diz uma canção. Iatã Cannabrava a leu com os pés para que os demais a leiam com o olhar, soube ser invisível para que possamos ver sem ser vistos.