Retratos Imigrantes

RETRATOS IMIGRANTES DE AUGUSTUS SHERMAN
Augustus Frederick Sherman nasceu na Pensilvânia, EUA, em 1866, e chegou a Nova York em 1892. Após algum tempo, começou a trabalhar na Ilha de Ellis (Ellis Island) como balconista responsável por realizar o atendimento no local — principal porta de entrada dos imigrantes que chegavam aos EUA. Com o passar dos anos, tornou-se o chefe de balcão do serviço de imigração e participava dos comitês adicionais de interrogatório. Seu interesse em fotografia foi inspirado pelo chefe geral da Ilha, Terence Powderly, que também era um fotógrafo amador como ele. Sherman era um autodidata competente, curioso e detalhista nas imagens que produzia dos imigrantes, que nos períodos de pico chegavam a 5.000 pessoas por dia.
Ellis Island
A Ilha de Ellis recebeu entre 1892 a 1924 cerca de 12 milhões de pessoas de diversas nacionalidades - que buscavam um local melhor para viver, longe das perseguições religiosas e políticas, dos desastres naturais, da industrialização, da pobreza e do fascismo -, tornando este período histórico de imigração de massa por um lado progressista, mas também, por outro, um ambiente de conflito e xenofobia. Ellis tornou-se a ilha de esperança ou de lágrimas para aqueles que não conseguiam passar pelas exigências de letramento, de saúde, ou provar que tinham recursos para se manterem inicialmente nos EUA. Os reprovados eram mandados de volta ao país de origem, enfrentando novamente oito a quinze dias de viagem.
O tempo de espera na Ilha era de aproximadamente cinco horas para aqueles que passavam por todos os testes, e cerca de 20% dos passageiros eram detidos para mais interrogatórios. Era neste momento que Sherman se aproximava dos grupos ou indivíduos que pareciam mais exóticos e pedia para tirar um retrato deles com seus trajes nacionais ou folclóricos, que estavam guardados em suas malas, as quais podiam permanecer junto com o imigrante por questões de segurança. Essa “bagagem cultural” apresentava várias formas, tamanhos e pesos, limitados à capacidade de carregamento permitida. Não restava alternativa senão colaborar e posar para a fotografia, pois Sherman era um funcionário do governo e esta atividade poderia ser parte das exigências que facilitariam a entrada.
Ao colocarem seus trajes, os imigrantes mudavam de expressão, determinando assim um instante que evocava as reminiscências da terra deixada para trás, os medos do desconhecido e a esperança de uma nova oportunidade. O que vemos na maioria das imagens é a captura deste momento. Nas imagens também transparecem a variedade, a riqueza, as aspirações e ansiedades depois de uma jornada extensa. Eles almejavam, dentre outras expectativas, serem aceitos no novo país.
Sherman trazia a maioria das pessoas para fora do edifício, de forma a utilizar a luz natural e buscar diferentes ângulos e enquadramentos. Fotos internas só poderiam ser realizadas com flash, cujo uso ainda não era bem resolvido na época. Sua posição como chefe permitia usar o tempo necessário para fazer as fotos, uma vez que as técnicas de exposição e poses requeriam um tempo grande no início do século XX.
A aura do retrato e a carga de energia que aquelas pessoas carregavam pelo olhar, pela pose e pelas vestimentas transpassa a intenção técnica do fotógrafo e consegue mostrar ao mesmo tempo, em única imagem, o passado, o presente e o futuro.
O legado imagético de Sherman pode ser pensado no contexto estético, assim como outros fotógrafos que nesta época utilizarão a fotografia etnográfica para a categorização de grupos sociais, como o etnologista Edward S. Curtis (1869-1952) com os índios americanos e August Sander (1876-1964) na produção do “inventário” do povo alemão no início do século 20.
Não podemos esquecer, ao falar em diáspora, de outros exemplos de imagens seminais da história da fotografia como as de Alfred Stieglitz (1864-1946), reunidas em The Steerage, 1907, por meio das quais vemos como os imigrantes de terceira classe viajavam. Os passageiros oriundos da primeira classe não precisavam descer na Ilha de Ellis, e partiam direto para o porto de Nova York. Outro caso da fotografia que aborda esse tema é Migrant Mother, 1936, de Dorothea Lange (1895-1965), que retrata uma mãe fugindo da depressão americana com seus filhos.
Outro importante fotógrafo americano que retratou a Ilha neste período foi Lewis Hine (1874-1940). Sua aproximação era a de compaixão com o retratado ao dignificar o imigrante como um herói, ao mesmo tempo em que trazia em suas composições questões religiosas, assim como fez em um de seus mais importantes ensaios sobre o trabalho infantil.
O campo da fotografia e imigração oferece múltiplas vertentes. Sebastião Salgado (1944- ), fotógrafo brasileiro que por seis anos documentou a experiência das migrações em várias partes do mundo, apresentou em 2000 o projeto ÊXODOS. Atualmente, o tema deslocamento é recorrente na arte contemporânea.
As imagens de Augustus detêm uma dualidade, assim como a Ilha de Ellis — um ambiente de expectativa para alguns e de preconceito para outros. No entanto, certa vez, suas fotografias foram usadas negativamente por xenófobos, sem seu consentimento, empregadas para ampliar o estereótipo e para apresentar a diversidade de povos que chegavam aos EUA como um problema para o país, visto como pareciam eles “selvagens e primitivos”. Os retratos com trajes típicos reforçavam essa ideia para os nacionalistas. Por outro lado, os retratos de alguns holandeses foram usados pelo New York Times em 1907 de modo positivo quando os assuntos referentes à imigração eram cogitados.
Sherman contribuiu essencialmente para discutir os questionamentos de entrada e saída dessas pessoas, assim como debateu a cidadania e a riqueza étnica gerada por essa época para que tivéssemos um retrato fascinante, complexo, e, sobretudo, para que não nos esquecêssemos desses momentos fundamentais na história da humanidade, estes que continuam a se repetir nos assuntos do deslocamento humano. São pessoas e famílias que deixaram tudo para trás para imigrar, buscar alternativas e oportunidades de erigir novas comunidades com perspectivas mais tolerantes, pacíficas e democráticas.